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Sua empresa já tem os dados. Por que o valor não aparece?

Foto do escritor: Letícia Carvalho
Letícia Carvalho
há 19 horas
3 min de leitura

A maioria das empresas que eu visito não precisa comprar mais nada. Data lake, cloud e BI já estão lá. O que falta é outra coisa, e ela não se resolve com mais uma ferramenta.


Tem um tour que eu já fiz dezenas de vezes.


A empresa me mostra o data lake implantado, a cloud contratada, os dashboards rodando. O investimento foi feito, e foi grande. O time é competente. A arquitetura, muitas vezes, é bonita de ver.


E aí, quase sempre na mesma altura da conversa, aparece a frase que motivou a reunião: "o CFO está perguntando quanto disso virou resultado".


Silêncio de novo.


Essa é a mudança mais importante do mercado de dados nos últimos anos, e pouca gente nomeou: o problema deixou de ser adoção e passou a ser captura. Dez anos atrás, a pergunta era "como a gente monta essa estrutura?". Hoje a estrutura existe. A pergunta virou "cadê o retorno dela?".


Despensa cheia não é jantar. E ingrediente parado é custo.


As três travas que eu encontro


Quando o valor não aparece, a causa quase nunca é técnica. Nas empresas de médio e grande porte que eu acompanho, ela mora em três travas, quase sempre juntas.


Trava 1: ninguém prioriza os casos de uso. Existe uma lista de ideias, às vezes com vinte, trinta linhas, e nenhum critério que diga qual vale mais dinheiro. Sem priorização, ganha a ideia de quem pediu primeiro ou mais alto. E a empresa descobre, um ano depois, que gastou o orçamento nas iniciativas erradas.


Trava 2: ninguém consegue comprovar ROI. Os projetos rodam, os demos impressionam, e na hora de renovar orçamento ninguém tem um número pra colocar na mesa. "O ganho é intangível" vira a frase oficial. E orçamento não se renova com promessa duas vezes.


Trava 3: nada escala com governança. O piloto que funcionou vira dez pilotos improvisados. Sem qualidade de dado, sem catalogação, sem controle, cada nova iniciativa custa mais que a anterior. Escalar improviso não é escalar. É repetir o risco em tamanho maior.


Repara que nenhuma das três se resolve comprando mais ingrediente. As três se resolvem com decisão: qual problema atacar, com qual número, sob qual controle.


Não sou só eu que enxergo isso. O Marcus Campos, conselheiro e CEO da CMP Business Solutions, associada à Fundação Dom Cabral, é uma das vozes de governança em que a gente se apoia, e chega ao mesmo lugar olhando de outro ângulo. Na newsletter dele, ele aponta a falta de clareza sobre prioridades e a dificuldade de mensurar impacto nos resultados como desafios que "travam o crescimento" das médias empresas. E escreve que "as empresas mais ágeis que conheço são as que têm regras claras". Troque governança corporativa por governança de dados e o diagnóstico é o mesmo.


A causa que ninguém escreve no diagnóstico


Tem um agravante estrutural que eu faço questão de nomear, porque ele explica por que empresas bem servidas de fornecedores continuam travadas: o resultado não tem dono.


O desenho típico é este: a estratégia foi feita por uma consultoria, a engenharia de dados por outra, a IA por uma terceira, a cloud por um quarto contrato. Cada fornecedor entrega a sua etapa, e entrega bem. Mas quando o prato não sai, cada um aponta pro outro. A estratégia culpa o dado, o dado culpa a integração, a integração culpa o escopo.


Etapa entregue não é resultado capturado. E responsabilidade fatiada é responsabilidade de ninguém.


Foi por viver isso do lado do cliente que a Dataside se desenhou do jeito que é: estratégia, engenharia de dados, IA, cloud e adoção na mesma empresa. Não porque integração vertical é bonita no slide, mas porque é o único desenho em que alguém pode ser cobrado pelo número final, e não pela etapa.


Por onde começar a destravar


Se a sua despensa está cheia e o jantar não sai, o primeiro passo não é técnico. É um diagnóstico honesto do negócio: quais são as maiores dores, em reais? Onde a operação perde dinheiro que os dados já registram?


O segundo é priorizar com critério: matriz de impacto por esforço, cálculo de ROI, business case. De trinta ideias, sobram as duas ou três que movem o ponteiro. As outras voltam pra fila, documentadas, esperando a vez.


E o terceiro é começar pequeno e medido: um MVP com indicador de sucesso e payback definidos antes da primeira linha de código, e um dono que assina o número no fim.


Faz esse exercício com o seu time este mês, antes do orçamento de 2027 fechar. Se o resultado for uma lista priorizada com números, você acabou de fazer sozinho o que muita consultoria cobra pra fingir que fez.


E se quiser companhia na leitura, é literalmente por aí que a gente começa. Antes de qualquer proposta.


Despensa cheia não é jantar. Mas com o cardápio certo, o jantar sai rápido.

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